Paranhos
Trekking no Pico da Bandeira.
17/04/2010
Eis
que o Paranhos Trekking voltou à atividade.
No dia 17 de abril de 2010, depois de um jejum
de dois anos, os integrantes do Paranhos e mais
alguns convidados se aventuraram na travessia
do Parque Nacional do Caparaó, na divisa
dos estados de Minas Gerais e Espírito
Santo.
O Parque Nacional do Alto Caparaó já
era terreno conhecido pela maioria dos 15 ocupantes
da Van que partiu de Visconde do Rio Branco-MG,
atrás de alguma aventura, portanto, ao
invés de fazermos o ataque ao Pico da
Bandeira da maneira mais comum, ou seja, partindo
da portaria mineira de Alto Caparaó,
escolhemos fazer a travessia iniciando pela
portaria de Pedra Menina no estado do Espírito
Santo, passando pelos picos do Calçado
e da Bandeira até a Tronqueira que é
o primeiro ponto de acampamento do lado mineiro.
Elegemos o outono como opção por
conta do baixo índice pluviométrico
e temperaturas não tão baixas.
Cada passo foi planejado minuciosamente: sairíamos
de Visconde do Rio Branco às 5 horas
da manhã do sábado, com tempo
estimado de 4 horas de viagem, entraríamos
no parque às 9 horas, chegaríamos
ao pico da Bandeira após 4 horas de caminhada,
ficaríamos alguns minutos contemplando
a bela vista que se tem lá de cima, mais
três horinhas de descida e então
poderíamos curtir o pôr do sol
da tronqueira. Passamos a semana anterior a
vigiar os sites de previsão que informavam
uma pequena possibilidade de se precipitar algo
em torno de dois mm de chuva. Tudo certo e planejado,
agora era só curtir a travessia, porém,
planejamento é algo que caminha paralelamente
com imprevistos, ainda mais quando se trata
de montanhas, estes seres maravilhosos e cheios
de manias como nossas esposas.
Saímos de Visconde do Rio Branco no horário
planejado, afinal 10 minutos não é
atraso que se considere, todavia nossa estimativa
de tempo de viagem furou, as 4 horas previstas
se transformaram em 5 horas e meia, chegando
no parque as 10:30, ou seja, uma hora e meia
atrasados. Nisso vem o guarda do parque e nos
pergunta se alguém conhecia a trilha
e quando respondemos que não, o sujeito
todo atencioso nos disse que, então,
deveria cumprir um procedimento do parque que
era nos dar algumas instruções,
o que levou o nosso organizador oficial de excursões,o
Willian, a beira do desespero, já que
tínhamos uma hora e meia de atraso, agora
teríamos ainda mais atraso. Por sorte,
o procedimento durou não mais que uns
dez minutinhos. Depois de cumpridos os trâmites
de entrada no parque, embarcamos novamente na
van que nos levaria ao último ponto de
acampamento do lado capixaba, a Casa Queimada,
que fica a 9 km da portaria e de onde iniciaria
a travessia propriamente dita. Neste momento
já tínhamos duas informações
importantíssimas: a primeira de que a
van teria dificuldades em cumprir mais estes
9 km por conta de pontos íngremes e de
pouca aderência, e a segunda de que havia
uma previsão para 9mm de chuva para a
região naquele dia, um calibre grosso
considerando-se o ambiente montanhoso e a distancia
a ser percorrida a pé.
A van conseguiu, bravamente, nos levar até
um ponto a 2 km do acampamento Casa Queimada
e neste momento, já caía uma garoazinha
fina que nosso otimismo preferia considerar
como passageira. Daí por diante tivemos
que seguir a pé, o que elevou a estimativa
de caminhada de 13,5Km para 15,5Km. Neste momento
uma dúvida cruel se abateu sobre os mais
experientes, se deveríamos insistir e
continuar a aventura mesmo com os acessórios
com que o acaso resolveu nos presentear, ou
abortar tudo e atacar o Pico da Bandeira no
dia seguinte, pelo lado mineiro, após
ter descansado confortavelmente na pousada no
lado mineiro? Mais uma vez o otimismo falou
mais alto e nos despedimos de nosso veículo,
os mais experientes com um certo receio e os
menos experientes sentindo algo que beirava
o pânico.
A Caminhada mal havia começado e a chuva
fez o favor de dar uma apertadinha, não
havia mais como chamar a van já que nos
esquecemos de pegar o número do telefone
celular do motorista, o que fez pouca diferença,
pois já não estávamos mais
em área coberta por operadoras de telefonia
celular, o jeito foi seguir caminhando até
encontrarmos o acampamento Casa Queimada, onde
esperávamos encontrar algum guarda do
IBAMA com rádios comunicadores que poderia
chamar algum meio de transporte para quem quisesse
desistir da empreitada. Mais uma vez o improvável
aconteceu, não encontramos ninguém
por lá, nem visitantes, nem guardas do
IBAMA, quem nos deu as boas vindas foram dois
passarinhos.
Na casa Queimada pudemos utilizar banheiros,
fazer um pequeno lanche e queimar um pouco de
tempo, contemplando as Pedras Irmãs,
uma formação rochosa muito bonita
que fica ao lado da trilha para o pico da Bandeira
a um pouco mais de 1000 metros da Casa Queimada,
ficamos um tempinho por ali esperando que a
chuva desse uma trégua, o que não
ocorreu, - otimismo de montanhista é
tudo - seguimos caminhando para o alto e avante,
com uma chuva leve e uma serração
de cortar com faca, ainda com a esperança
de que o ganho de altitude nos afastaria da
chuva. Da Casa Queimada até o pico da
Bandeira são 4,2km de subida, mas como
a subida se dá por terreno muito íngreme,
dá a impressão de ser mais que
isso.
A trilha do lado capixaba é muito bem
marcada e apesar de ter sido a primeira vez
que subíamos por ali, não tivemos
nenhuma dificuldade em encontrar o caminho;
as marcas amarelas nas pedras e em taquinhos
de madeira, mais as indicações
pesquisadas na internet foram suficientes.
Os primeiros a atingir o cume do pico da bandeira
devem ter levado cerca 4 horas de caminhada
e os últimos mais ou menos 4 horas e
meia, esta diferença ocorreu em função
das diferenças naturais de condicionamento
físico do grupo e por conta de um dos
integrantes ter se sentido mal, sem contar a
chuva que com toda certeza diminuiu o ritmo
da caminhada, portanto, pode-se considerar como
tempo normal de subida com clima favorável,
cerca de 4 horas para um grupo com condicionamento
físico médio. (atletas subirão
com menos tempo e pessoas sem condicionamento
físico nenhum nem devem tentar)
Para atingir o pico da Bandeira subindo pelo
lado capixaba é necessário passar
pelo pico do Calçado, descer alguns metros
e subir novamente até o Bandeira. Com
tempo bom teríamos feito fotos espetaculares
do trecho entre os picos, mas o que nos restou
foi aproveitar os poucos segundos em que a chuva
cessava e o vento abria um pontinho azul no
céu para tirar umas poucas fotos.
Ataque ao cume realizado com sucesso absoluto,
era hora de descer os nove quilômetros
que nos separava da tronqueira, onde a van estaria
nos esperando para enfim, nos levar até
a pousada. Começamos a descida ainda
com o tempo instável, muita serração,
porém com menos chuva. Ao atingirmos
um platô a aproximadamente 3 km do pico
a serração se dissipou e a chuva
deu aquela tão esperada trégua,
pudemos enfim curtir um pouco mais a paisagem.
Descemos novamente em blocos, com a intenção
de nos reagruparmos no terreirão, que
é um ponto de acampamento situado no
meio do caminho entre o Bandeira e a Troqueira,
lá encontramos dois aventureiros de Mariana-MG
que subiriam ao pico de madrugada para assistirem
o nascer do sol no Bandeira, eram as duas primeiras
pessoas fora do grupo que víamos desde
que a van nos havia deixado. Duas figuras extremamente
simpáticas com as quais trocamos informações
sobre as condições climáticas
e até tomamos com eles uma ou duas doses
de cachaça (esse é o povo mineiro).
Entre um dedo de prosa e uma cachacinha o fim
da tarde se anunciou e ainda havia dois casais
na trilha. Fomos obrigados a mais uma vez quebrar
o grupo. Desci na frente com um grupo onde estava
o integrante que tinha se sentido mal, achei
prudente fazer com que ele chegasse logo ao
ponto de encontro com a Van, e também
consideramos o fato de termos poucas lanternas
e portanto, deveríamos aproveitar ao
máximo a luz do dia. Deixamos no terreirão
um de nossos mais experientes andarilhos, com
a incumbência de guiar o segundo grupo
até a tronqueira.
Não demorou muito e as lanternas se fizeram
necessárias e aquela garoazinha ensaiou
reaparecer, por sorte ela não insistiu,
bastavam as dores musculares e nas articulações,
não era necessária a chuva para
aumentar o nível da aventura, não
naquele momento. Quando chegamos à tronqueira
já eram cerca de 19h11min, a escuridão
era total, então passamos a procurar
a van e seus confortos, mas, mais uma vez o
que não podia acontecer, aconteceu, a
Van inexplicavelmente não estava lá.
Começou o desespero, procurávamos
área para o celulares, tentamos ligar
para tudo que era número, menos o do
motorista da van, pois como já sabemos,
não tínhamos. Nesse ínterim
o segundo grupo também chegou e o Willian
conseguiu falar com a portaria do parque, que
informou que a van até tentou subir os
6 km entre a portaria e a tronqueira, porém,
por conta do piso molhado, patinou e ficou atravessada
na estrada. Neste momento o que a maioria cogitou
foi em dormir por ali mesmo, abrigados apenas
por uma varanda, outros (inclusive eu) já
pensavam em encarar mais seis quilômetros
de caminhada serra abaixo e tentar arranjar
ajuda para quem não quisesse ou não
pudesse descer, todavia, o universo resolveu
dar uma forcinha e conspirar a nosso favor;
o Willian conseguiu falar com o motorista da
van por meio do telefone da portaria do parque
e solicitou a ele que tentasse encontrar três
Jipes para nos resgatar.
A van só conseguiu sair de onde estava
agarrada quando os guardas do parque chamaram
os policiais da cidade para tomarem conta da
portaria enquanto eles subiam com uma caminhonete
para rebocar a van.
Os jipes chegaram e foi aquela festa, imagem
que víamos não eram de jipes,
mas de carros de luxo, verdadeiras limusines,
especialmente preparadas para nos transportar.
Alívio geral, agora era só curtir
a descida até a pousada em Alto Caparaó.
Os mais malucos escolheram o jipeiro que não
tinha cara de bom moço, e pediram que
a descida fosse feita com emoção
no que foram prontamente atendidos, eu preferi
descer com o jipeiro de jeitão simpático
e fiquei apenas assistindo os malucos descendo
no jipe que nos ultrapassou logo na primeira
curva fazendo um barulho que mais parecia um
trovão.
Chegamos à pousada com a mesma sensação
de alívio de quem acaba de tomar anestesia,
foi muito bom tomar um banho quente e encontrar
o Willian com um latão de cerveja na
mão. Tomamos aquela lata de cerveja já
sentindo cheiro do jantar sendo preparado.
Jantamos como serventes de pedreiro e dividimos
novamente o grupo, desta vez entre os que queriam
procurar "balada" e os que queriam
dormir. Cheguei à porta da pousada, olhei
a rua e ponderei, cidade do interior, cinco
mil habitantes apenas, estabelecimentos comerciais
fechados... juntei-me ao grupo dos que iam dormir.
Os que saíram andaram, a pé, cerca
de dois quilômetros até acharem
um bar aberto, não era alta temporada
de turismo, nada mais natural do que não
ter festa na cidade. Tomaram mais algumas cervejas
e no retorno à pousada mais uma situação
engraçada, quando dois doidos cismaram
de voltar a pé 10 minutos após
um taxi ter levado o resto da turma, dois quilômetros
de pura penúria, mas chegaram íntegros
à pousada.
A travessia entre as portarias capixaba e mineira
do parque nacional do Caparaó é
altamente recomendável, principalmente
para os aventureiros acostumados com o jeito
clássico de se atacar o pico da Bandeira.
A travessia diurna transforma a paisagem e dá
uma diferente acerca do lugar.
| Texto
Amauri Barreto |
| Revisão:
Cleuseni Fernandes e Willian Milagres |
| Diagramação:
Leonardo Rocha |